Você sabe qual o paradeiro de Tatu?
(e mais: show de Mano Chao e as eternas saudades de sempre).
(e mais: show de Mano Chao e as eternas saudades de sempre).
Tatu era um homem baixinho, quase um anão, preto retinto. E careca. Que eu me lembre, tampouco tinha dentes. Costumava usar umas calças dessas de tecido azul marinho, além de camisas de botão bem passadinhas e engomadas. Nos pés, um par de sandálias havaianas brancas com correias azuis anil. Mas o detalhe mais interessante sobre Tatu era sua mania histérica de rir, em qualquer situação. Como eu não acredito em seres humanos felizes – mas em disfunções psíquicas graves –, para mim Tatu era maluco. O que não significava que eu não gostasse dele. Gostava sim.
Tatu sempre me recebia de braços e sorriso abertos, do alto de seus um metro e quarenta e poucos, enchendo o ar de uma gargalhada seca e descontrolada nos minutos que antecediam nosso ritual. Não consigo me lembrar exatamente o que ele fazia da vida além de sorrir e me levar ao cemitério todos os anos, quando chegavam as férias e eu me enterrava no esquecimento de uma minúscula cidade do interior da Bahia chamada João Amaro. Tatu não é um personagem inventado, mas alguém que, por muitos anos, fez de um pátio de lápides e epitáfios o lugar mais divertido dos longos dias de férias de uma garota solitária.
Dia desses, estava pensando o que teria acontecido com Tatu: teria morrido, ou mudado de cidade, ou finalmente teria sido internado numa instituição psiquiátrica, ou talvez até se recuperado do alcoolismo (ele recendia a cachaça) e nunca mais dado uma risada sequer em toda sua vida? Tatu, você me ouve? Você me lê? Chegou Internet em sua casa e você é engenheiro de sistemas? (chamo isso de ser cretina, cínica e politicamente incorreta até a medula; às vezes é necessário).
Passados tantos anos, Tatu continua vivinho da silva em minha mente, mais como personagem do que como ser humano de verdade. O silêncio das tardes e as horas elásticas de Cuba me têm feito escarafunchar o baú dessa minha vida lá atrás, aonde eu dei de cara com alguns tipos que, ou são reais, de fato, ou não passam de sintomas de minha esquizofrenia ainda não diagnosticada. Ao menos, não clinicamente. Eu visitava cemitérios. Eu andava com um senhor gnômico. Eu caminhava quilômetros para chegar até um velho sobrado abandonado, nas cercanias da fazenda de meus pais, pelo simples prazer de sentir medo e voltar correndo para um lugar seguro.
Naquela época, eu devia ser a única freak que não saía em férias divertidas, em praias divertidas, cheias de possíveis garotos divertidos e apaixonantes pelos quais eu certamente me apaixonaria platonicamente. Enquanto os outros tinham biquínis e passeios de bugre e sorvetes Kibom eu me virava com Tatu e passeios no cemitério, além de Seu Gogó, o vaqueiro, que me contava histórias de terror sem muita graça – porque eram sempre as mesmas, mudando, quando muito, o nome de alguns personagens ou a ordem de um ou outro evento.
Adulto pensa que criança é imbecil. A maioria é mesmo. Mas também não precisa generalizar.
Engraçado é que, passam anos, passam décadas, e o padrão de funcionamento da minha vida segue o mesmo. Tatu, Seu Gogó e outros personagens de minha infância vêm agora me visitar como fragmentos divertidos de uma realidade distante que, na época, para mim, não eram mais que figuras estranhas de minhas férias freak. Aí vem a pergunta: quando será que as aberrações – humanas e inumanas – daqui vão se converter em um apêndice inextirpável de minha história, como espectros invisíveis que estão ali, para sempre, ainda que eu tente trancafiá-los num baú? Quando o motorista de táxi clandestino que foi piloto de guerra, a senhora gorda e desdentada que ainda acha que Cuba é o país mais disputado do mundo e o sujeito que, sempre que me vê, passa horas falando dos 15 anos que levou reformando a cozinha de sua casa, quando esse bando de gente vai se juntar a Tatu, Seu Gogó e os cemitérios de 15 anos atrás?
Tatu, você está me ouvindo?
Um estranho modo de perceber o mundo. Mas tudo ok com ele.
Dia desses, fui ao show do Mano Chao, na Praça da Ação Revolucionária (ou alguma coisa nessa linha). Prova de que já estou acostumada com a insanidade desse lugar é que não consegui me surpreender com coisas que, antes, me deixariam boquiaberta. Tirando o discurso raso como um pires pró-revolução e antibush de Chao, o show foi muitíssimo bom, o som limpinho, as músicas seguindo a cadência típica das marchinhas de carnaval – uma colada na outra, ritmos mais pesados combinados com ritmos mais leves, o que é ideal para manter o clima de festa e, ao mesmo tempo, não cansar a multidão. Muito bom. Estranho foi ver um francês muito louco fazendo ode à marjuana, enquanto milhares de policiais fiscalizavam as pessoas com seus cães farejando de droga. Tsc tsc.
Tatu, você por acaso... estava no show de Mano Chao?
E por falar em passado, que é a parte mais gostosa da vida, posto que é narrativa, ontem não teve como não me lembrar de Rodrigo, Keko, Greice, Ronei, Bimblim, Stefan, Lud, Lula, Ju, enfim, de todos, durante a cerimônia do Oscar 2006. Que perdeu 80% da graça por não contar com os comentários inteligentes e ácidos, e com toda a galhofa que só essas pessoas sabem fazer, com estilo. O passado a gente sai carregando amarrado na canela, feito lata em carro de recém-casados, ruidoso e chamativo. E as saudades estão sempre cá com a gente, imprimindo fotos mentais de momentos que só engrandecem com o passar do tempo. Sempre.
Eu ainda não sei como saudade não mata...
Você sabe?
G.

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