Sobre o quase-enlouquecer e outras aberrações.
(e Feliz Aniversário para meu Rafa)
O circo de horrores de Tod Browning me fascina. Freaks (1932) e The Unknown (1927) são variações narrativas de uma mesma temática: a revanche de seres defeituosos contra a sociedade hipócrita que os condena. Seres humanos belos, porém eticamente torpes, tripudiam sobre anões sem pernas, horrendas gêmeas siamesas e seres corpulentos de cabecinhas minúsculas. E tome-lhe maltratar. E maltratar. Maltratar. Até chegar a um ponto em que a vingança das aberrações se converte em justiça. Aí nos comprazemos, sinceramente, com as estocadas de faca que o anão protagonista (esse sim com pernas) desfere na mulher mais bonita do circo, que o engana ao dizer que está apaixonada, quando na verdade só se interessa pelo seu dinheiro (Freaks).
Não sei por que motivo, mas Tod Browning e seu circo negro têm tido participação garantida em alguns de meus sonhos desde sábado retrasado, quando fui à Feira Internacional de Livro de Havana na esperança (tola) de encontrar livros de algum escritor decente. Ou docente. Uma aberração de cada vez. Os sonhos. Os sonhos anunciam um número circense em preto e branco do qual Rodrigo, Keko, Rafa, Bimblim e Miss Pig (The Muppets) são os espectadores; tudo tem uma atmosfera todbrownesca, e a platéia está assustada – tenho quase certeza de que estão chorando, com exceção de Miss Pig, que é de pelúcia. Na seqüência, aparece Gugu Liberato (Domingo Legal) que oferece a mim, Gabi (Minha Vida Macabra em Cuba, 24 horas por dia no paper-view), uma estadia gratuita na sua casa particular em Varadero.
Nessa parte, eu acordo realmente assustada.
Que conclusão eu posso tirar disso tudo? Nada muito além do textual: o mundo está cada vez mais freak, e nós – com exceção de Miss Pig, que é de pelúcia –, cada vez mais boquiabertos com esse circo horrendo que parece não ter fim. Sim, hoje é dia de apedrejar o mundo e vestir uma camisa negando qualquer vínculo com a raça humana: Só os Muppets salvam, em letras vermelhas e bem, bem grandes.
(as razões para os argumentos, creiam, são mundanas e bem menos interessantes que o raciocínio em si).
A segunda aberração traz para vocês: (1) quinhentas pessoas espremidas num corredor estreito, (2) um dilúvio bíblico combinado a 15 graus de temperatura e (3) macabros estandes ou com livros caros e ruins, ou com livros baratos e ruins, ou com livros sobre política e revolução – que entram na categoria dos "baratos e ruins", mas que merecem menção à parte por dominarem 89% do evento. Como quase tudo em Cuba, a Feira Internacional de Livro de Havana é mambembe e decepcionante. Gente que não acaba mais se debatendo e disputando um lugar no evento por pura falta do que fazer – a maioria passa a tarde andando para cima e para baixo, e vai embora sem levar sequer um folheto. Além do clima de festa de largo, uma chuva inesperada acabou tirando o ânimo até dos mais entusiastas caçadores de livros (e eu que costumava me vangloriar de enfrentar a Avenida Sete com Cerqueirita, na trilha dos sebos da cidade...).
One of us! One of us! We accept you! We accept you!
One of us! One of us! We accept you! We accept you!
Contrastando com anões sem perna, homens de cabeça minúscula e corpanzil, professores incompetentes, musgos falantes, Gugu Liberato, multidões socadas em eventos culturais toscos, canetas de cem cores, escritores ruins, discriminações e preconceitos diversos, neo-hippies, pseudo-intelectuais e pessoas que falam "cara" a cada cinco minutos, existe Miss Pig e a sua vasta pelúcia cor-de-rosa. Miss Pig, sua vasta pelúcia cor-de-rosa e alguns versinhos. Para o mais eficaz e exclusivo antídoto contra as aberrações do mundo (me concedam o espaço para a rasgação de seda), o mais doce e inteligente dos meninos, o meu menino, Rafa.
De topada em topada
Dói o meu dedão do pé
Acaba valendo a pena
Mesmo que eu tenha chulé
Esteja eu na China
Ou na ConConConConConChinChina
Você chega com mil beijos
De bits ou azulejo
Porque só você conhece
O caminho até meu pé
Mesmo que eu tenha chulé
Obrigada, Miss Pig. E, meu Rafa, parabéns. Feliz aniversário, viu? Eu te amo assim, um monte que nem cabe no horizonte. :_ )
G.

3 Comments:
Minha Giganta. Não consegui evitar. Foi maior do que eu, mas ao ver Miss Pig tão bela, tão rosa, tão inócua me veio uma cena na cabeça de sexo selvagem e altamente manipulável entre ela e nosso amado Cheroso. E desta furtiva relação nasceria "Cheropig" um ser anômalo.Êla seria o(a) chefe da gangue de seres renegados que domirariam o arquipélago de Fidel. Viva a la revolución!!!!
Ui, ainda bem que eu não estava nesse sonho. Filmes horrendos de horror macabro não são a minha cena, né Gabinha? Saudades imensas...
E ai, mulher? :) To te acompanhando na terra do Fidel, meio que a distancia, mas companhando. :) Como vai tudo por ai?
Bj
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