Brokeback MountainO paraíso está cheio de ovelhas e cowboys
G.A.
Para eles*
Para eles*
A imagem daquele idílico paraíso bíblico, com Adão, Eva e maçãs vermelhas, será completamente outra depois de Brokeback Mountain, novo filme de Ang Lee e concorrente forte ao(s) Oscar, nesse ano. Saem a kitsch flora e fauna tropicais, além do casal de protagonistas sem o menor sex appeal (porque aquele cabelão de Eva é feio que dói); entram a uniformidade verdejante de extensos prados, ovelhas branquinhas que não são mais que o reflexo das nuvens do céu na Terra e um casal de cowboys apaixonados de matar. O filme maneja, com destreza, uma infinidade de signos que remontam ao mito do pecado original, fazendo uma crítica acre e muitíssimo inteligente ao julgamento que os gays sofrem, na pele, de ninguém menos que os seus próprios semelhantes – e não de uma entidade divina suprema, como acontece na "versão original" da história. Tapa de luva de pelica, Ang Lee.
Brokeback Mountain conta a história do amor inabalável entre dois homens que, contra todos os tabus da época (os Estados Unidos sulistas dos anos 60), mantêm o que sentem um pelo outro até as últimas conseqüências. Os jovens Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennis Del Mar (Heath Ledger) se conhecem num verão, em Brokeback Mountain, quando são contradados para administrar um rebanho de ovelhas. Milhares delas. Isolados do mundo a não ser pelo céu de lã que os circunda, Jack e Ennis dão início a uma comovente história de amor, que não fica na sugestão covarde e assexuada de um Philadelphia, por exemplo. Da chispeante troca de olhares e imediato desvio do rosto por timidez, ao beijo apaixonado e desesperado de quem ama em silêncio por muito tempo, a relação de Jack e Ennis faz-se verossímil. E emociona. Muito.
Brokeback Mountain conta a história do amor inabalável entre dois homens que, contra todos os tabus da época (os Estados Unidos sulistas dos anos 60), mantêm o que sentem um pelo outro até as últimas conseqüências. Os jovens Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennis Del Mar (Heath Ledger) se conhecem num verão, em Brokeback Mountain, quando são contradados para administrar um rebanho de ovelhas. Milhares delas. Isolados do mundo a não ser pelo céu de lã que os circunda, Jack e Ennis dão início a uma comovente história de amor, que não fica na sugestão covarde e assexuada de um Philadelphia, por exemplo. Da chispeante troca de olhares e imediato desvio do rosto por timidez, ao beijo apaixonado e desesperado de quem ama em silêncio por muito tempo, a relação de Jack e Ennis faz-se verossímil. E emociona. Muito.
A maneira como os dois personagens assumem a relação, confortáveis um com o outro e com o espaço à sua volta, é destacada pelas belíssimas panorâmicas de Ang Lee, que não se furta em explorar a imensidão do espaço imaculado, alheio aos olhos humanos secularmente treinados para julgar e condenar. Na imensidão verde de Brokeback Mountain, são apenas Jack e Ennis, um casal de Adãos apaixonados que ora brincam como dois meninos, rolando pela relva em sinal visual irrefutável de êxtase, ora protegem-se do frio e das dúvidas que, invariavelmente, azucrinam as suas cabeças. "Mas eu não sou gay", diz Ennis, "Nem eu", rebate Jack. O confuso texto do assumir-se.
A inevitável quebra desse estado de enamoramento é sugerida, desde o princípio, com a casualidade de que só uma boa história é capaz. A belíssima fotografia da paisagem de Brokeback Mountain varia de um primeiro estágio de céu azul celeste – que sublinha o frescor do primeiro encontro entre Jack e Ennis – até a acinzentada confluência de nuvens carregadas que se impõe, aos poucos, sobre as cabeças dos personagens. Ang Lee trabalha muitíssimo bem com imagens simbólicas, sem que estas tenham que gritar "Ei, eu sou um símbolo, me interprete!", o que quebraria a cadência narrativa, não deixando nada por dizer no final.
Expulsos do paraíso, Jack e Ennis confrontam a sociedade intolerante e avessa ao diferente a que estamos tão acostumados. Aqui, a novidade fica por conta da sutileza com que Lee constrói os diálogos e resolve os conflitos. A discriminação está, inclusive e principalmente, no silêncio de diálogos cifrados e que quase nunca incidem, diretamente e com claras palavras, na questão da homossexualidade. Seja por preconceito ou simples medo do desconhecido e de como abordá-lo com propriedade, todos os personagens de Brokeback Mountain elegem vias de comunicação tortuosas e pouco claras para posicionar-se frente ao tema: esposas, familiares, filhos e desconhecidos em geral vêm carregados de um preconceito inconsciente, porém evidentes em sua maneira de olhar e agir e no silêncio pontual de seu julgamento (qual seja) engolido.
A história de amor entre Jack e Ennis ocupa duas décadas de um tempo narrativo dilatado, cujas transições temporais são inesperadas e as divisórias entre passado e presente, portanto, pouco demarcadas. Em uma cena, estamos em Brokeback Mountain com dois jovens apaixonados para, na seguinte, vermos que um deles está se casando (com uma mulher). Com isso, e com a pouca mudança física processada nos personagens, Ang Lee logra preservar a sensação de recém-apaixonar-se que caracteriza o amor dos dois. Apesar do tempo e das tantas mudanças, uma coisa permanece inabalável: a relação de cumplicidade, afeto e necessidade mútua entre Jack e Ennis, aonde vinte anos têm o peso de dois dias. Ou horas. Porque não há desgaste. Como o amor deve ser.
* Digo Barreto (Belis), Stefan, Luis Roberto, Vega e Eugênio. Meus Adãos.

4 Comments:
Amada mia,
Se ainda acredito em alguma coisa é a de que não há desgaste no amor verdadeiro. Se desgastou, não era amor. Não tenho mais o que falar sobre "Brokeback Mountain", você disse tudo e - por essas e outras -eu te amo muitíssimo.
Nesse momentos, eu tenho tanta felicidade em ser seu Belis (isso ninguém me tira).
Belis (aka Rodrigo)
Ah, que filme lindo... E um texto seu na volta do cinema (esperei para ler) completou a boa noite de hoje, Gabinha.
Minha conclusão é: seja aí, aqui ou no inferno, só a ficção - e um filme como esse - pra amenizar os dias.
Beijos.
Puta que pariu!!! Que filme é esse?
Muito, muito, mas muito bom. Ele só não é melhor do que o texto da nossa musa cubana, claro!!!
Bjão Gatona!
O filme é muito bom. Mas o melhor dele é ter popularizado todo um gênero de piadas.
Rodolfo
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