Siamese Fiction

Wednesday, October 22, 2008

Olá!
Aqui estou testando o post de uma música.
Será que vai funcionar?
Vamos ver.
-----------



------------
Funcionou?

Sunday, August 27, 2006


::Férias::
Edição Especial
see you soon
g.
;)

Monday, June 05, 2006


Ninguém diz eu te amo
Em "The Hole", Tsai Ming-Lang explora
as sutilezas mais inusitadas das paixões platônicas,
criando chaves frescas e originais para falar, sobretudo, de amor.

Para minha sempre, sempre querida Lud.

Graças a Ludmila Carvalho, uma jovem senhorita bastante especial na minha vida, que atualmente se ocupa do maravilhoso mundo do cinema oriental em seus estudos doutorais, no Canadá, graças a ela tive a feliz sorte de conhecer Tsai Ming-Lang, que já entrou na minha lista de cineastas preferidos, desde já, com seu espetacular filme "The Hole" (Taiwan-França, 1996). É para ela, minha Lud, que eu peço licença para falar de sua descoberta, uma pequena jóia nessa vasta e desconhecida cinematografia oriental que me fascina, sobretudo, pela sutileza narrativa capaz de converter histórias mínimas em grandes épicos intimistas e sentimentais.

A trama de "The Hole" gira em torno de um homem, uma mulher e a dificuldade de comunicação que os remete ao inevitável terreno das paixões platônicas. Taiwan é cenário de uma epidemia viral que obriga muitos cidadãos a evacuarem imediatamente as suas casas; num prédio totalmente abandonado, ele e ela – de quem tampouco sabemos os nomes – são os únicos a não deixar o local, optando por enfrentar o período de chuvas torrenciais e a ameaça de contaminação dentro de suas casas minúsculas, como se isso fosse suficiente para protegê-los do perigo.

Abandonados à (falta de) sorte de um período de quarentena que automaticamente varre de suas vidas responsabilidades, relações e rotinas, ambos se entregam a uma existência repetitiva e destituída de quaisquer metas. Eles apenas sobrevivem, alimentando-se de noodles pré-prontos em repetitivos rituais contíguos (ironicamente, têm a mesma chaleira e comem a mesma marca de comida, em suas minúsculas cozinhas, que também são idênticas). Os dois seguem ignorantes da existência um do outro até que uma fatalidade – melhor dizendo, outra fatalidade – finalmente os põe em contato direto. Ou quase isso. Um pequeno buraco no piso dele – e, conseqüentemente, no teto dela – rompe o tédio do passar de dias insones e vazios, aguçando sua curiosidade e praticamente obrigando-os a estabelecer algum tipo de contato.

Amor e noodles instantâneos

Em "The Hole", o amor é, ao mesmo tempo e paradoxalmente, visto (1) tanto sob a ótica das narrativas românticas (2) quanto através de uma abordagem crua e naturalista do mundo. Pode soar bizarro, mas a combinação encontra perfeito equilíbrio na poética de Ming-Lang. Náufragos de vidas solitárias, os protagonistas são despojados de quaisquer sinais que remetam às suas vidas pregressas: suas casas não têm fotografias, objetos de decoração ou qualquer coisa capaz de torná-las "lares", e não cubos idênticos decorados com poucos móveis. São personagens sem passado, sem história, sem voz (estão sós e calados, na maior parte do tempo). Eles tampouco exalam aquela espécie de encanto comum aos personagens de dramas românticos; Ming-Lang reforça sua falta de glamour envolvendo-os na cotidianidade desinteressante de uma semivida vegetativa e desenganada. Assim, os quadros estão cheios de tempos mortos e o seu ritmo interno é lento, o que pontua essa banalidade de que esses personagens são vítimas.

A primeira cena do filme traz Ele dormindo no sofá de uma sala pequena. Da janela da cozinha, que pode ser vista da sala, a chuva estrepitosa hachura a janelinha de vidro – um elemento constante na história, responsável por preencher os silêncios decorrentes da ausência de diálogos, música ou trilha sonora incidental. A câmera documenta o momento cotidiano na vida desse personagem, que segue dormindo até ser despertado por alguém que bate à porta; ele se levanta, atende ao visitante (é o bombeiro, que abre o buraco em seu piso, alegando problemas no encanamento), deambula no espaço, senta-se. Mal vemos seu rosto, já que o enquadre nos fornece uma visão genérica do personagem e de sua relação com o espaço.

Ela nos é apresentada chegando em casa, munida de sacos plásticos contendo pacotes e mais pacotes de papel higiênico e tentando secar os cabelos respingados de chuva. A câmera também é fixa e aberta. Ela entra, põe os sacos num canto, e tenta em vão manter alguma espécie de ordem no lugar: ajeita o papel de parede que começa a despregar-se por causa da umidade, tenta secar o chão encharcado, vai até a cozinha preparar a sua refeição instantânea. A câmera é paciente e não se adianta às ações dos personagens, nem as suprime ou sugere por elipses. O cotidiano é visto como se fôssemos, de fato, um voyeur à espreita na janela da frente – sem cortes ou artifícios, as ações vão se desenrolando com a imprevisível previsibilidade do cotidiano de dois estranhos.

Para Ele e Ela não resta outra saída senão a aproximação, ainda que a força que os atraia não seja propriamente romântica, pelo menos não ao princípio. Ambos sobrevivem sob o prognóstico bizarro de que muito provavelmente serão os próximos a morrer infectados pelo vírus. A urgência da concretização do amor, aqui, é paralela ao suspense que ronda cada passo da vida desses personagens, cada notícia sobre os sintomas da doença que eles ouvem dos noticiários da TV, cada goteira que se abre em seus tetos, ameaçando-os mais e mais com um futuro do qual não podem escapar ("é impossível para um ser humano sobreviver sob essas condições", alerta a voz off de um repórter que acompanha a apresentação dos créditos iniciais).

Voyeurismo

A dificuldade de comunicação é um pressuposto da existência desses dois personagens, e não um elemento pontual de suas condutas que se aplique unicamente às questões referentes à concretização de relacionamentos amorosos. Não se trata da usual timidez que antecede a união de casais apaixonados. Vai mais além, muito mais. Os personagens de Tsai Ming-Lang são seres perdidos em seu vasto mundo interior, ao qual temos acesso nos raros momentos em que o diretor consegue traduzir, em imagens, o seu fluxo de consciência. Talvez Ming-Lang seja dos poucos cineastas capazes de conduzir o espectador até o insondável universo dos pensamentos de seus personagens, e o faz através desse esmiuçar de suas manias cotidianas. Sem voz off, sem músicas ou canções que parafraseiem os seus estados de ânimo. De tanto vê-los "viver", despojados de qualquer artifício que os torne idealizados, o espectador vai conhecendo e reconhecendo em seus gestos e pequenas manias o que pensam e sentem.

Por isso nos enternecemos quando Ele urina na pia do banheiro, ao invés de usar o vaso sanitário, só para agradá-la (antes disso, Ela liga para Ele reclamando de que, quando Ele usa o vaso sanitário, o dela não funciona). Ou quando ele chora compulsivamente, um choro explosivo e sincero, desesperado, sentado no chão da sala, porque já não consegue mais vê-la através do buraco. Pode-se dizer que nesse choro há amor, desespero, arrependimento (por não haver feito nada antes), angústia, dor, enfim, um vasto mundo de sentimentos ao qual temos acesso com o passar da história.

É nessa "cotidianização" da narrativa que o cinema de Ming-Lang se revela poderoso. Raras vezes o tema do voyeurismo foi levado tão a sério como aqui, e é dessa observação paciente e silenciosa que emerge, pouco a pouco, o interesse pelos personagens e seus dramas individuais. Ele e Ela se espreitam pelo buraco e por outros "canais de comunicação" que unem suas casas vizinhas: Ele vomita, Ela suja as mãos com o vômito que cai sobre o seu televisor (o amor platônico nunca foi tão naturalista como nessa cena); Ele abre a torneira da cozinha, e a torneira dela não funciona; Ele põe o despertador para tocar, e é Ela quem desperta com o barulho; Ele liga a luz, e a casa dela se ilumina; Ela não pode usar o vaso sanitário se Ele o faz, na mesma hora. É desse intercâmbio silencioso de comportamentos comuns que surge o amor. Tão sutil, mas ao mesmo tempo tão urgente. Tão urgente, mas ao mesmo tempo tão difícil de comunicar.

Os musicais

Uma outra via de acesso ao mundo interior dos personagens, em "The Hole", são os inusitados musicais imaginados por Ela. A aridez que circunda a personagem, em sua casa quase sem móveis, num bairro fantasma em quarentena, a faz buscar refúgio em sua imaginação que, ao contrário da realidade, é cheia de cores e brilhos, evocando o kitsch e o absurdo visual de que carecem os cenários reais. Nesses musicais, Ela é a estrela absoluta, maquiada e vestida com roupas cintilantes e chamativas (exatamente o oposto de sua versão "real"). É através desses números que ela comunica, textualmente, a sua necessidade de ser vista como a mulher sedutora e irresistível que provavelmente gostaria de ser (o número de calypso dentro do elevador, no qual ela usa uma extravagante peruca cor-de-rosa e um justíssimo vestido colorido, para não falar das luzes pisca-pisca que decoram o ambiente, é imperdível), além de expressar os seus sentimentos pelo vizinho de cima.

Nos musicais, são apresentados números de rock and roll, calypso, r&b (com direito ao trio de backing vocals femininas que costumavam acompanhar, com seus vocalizes, a apresentação de uma cantora principal), culminando em um musical no melhor estilo Marylin Monroe em "Adorável Pecadora" (George Cukor), onde Ela é vista descendo e subindo escadas na companhia de homens de terno que, obviamente, estão aos seus pés. A apropriação desses elementos da cultura ocidental por Ming-Lang tem um caráter notadamente de farsa, de burla; o exagero das vestimentas da personagem, brilhantes e coloridas em matizes impensáveis até para a sua extravagância original, nos convoca a um riso de alívio à tensão instaurada na vida real de ambos os personagens. Contudo, o "glamour" forjado desses musicais, que ocorrem em diferentes espaços do mesmo edifício onde vivem os personagens, restabelecem o vínculo entre "realidade" e "sonho", lembrando-nos a todo o momento da sua condição de prisioneiros (da situação, do lugar, de sua própria dificuldade de comunicar, do futuro).

Tuesday, May 16, 2006

((( a inutilidade das coisas curiosas, a curiosidade das coisas inúteis )))

Segundo o dicionário Houaiss da língua portuguesa:

Rafa:
Substantivo feminino
Uso: informal.
1. Grande fome; estado de penúria; ráfia
2. Corte feito nos veios do carvão, para o desmonte da jazida

Rafael:
Substantivo masculino
Regionalismo: Rio Grande do Sul. Uso: informal.
1. Disposição para comer; apetite, fome

Rodrigo:
Substantivo masculino
Regionalismo: Norte de Portugal.
1. m.q. rodriga

Rodriga:
Substantivo feminino
Regionalismo: Norte de Portugal.
1. Estaca de madeira us. para sustentar videira, trepadeira etc.; Rodrigo

Gabriela:
Substantivo feminino
Regionalismo: Brasil. Uso: informal. Diacronismo: obsoleto.
1. Café com leite
Obs.: cf. café-com-leite

Jorge (de Ronei Jorge)
Rubrica: música.
m.q. metrônomo

Metrônomo:
Substantivo masculino
Rubrica: música.
1. Instrumento inventado no sXIX para estabelecer um padrão fixo para os andamentos musicais [Construído pelo mecânico austríaco Johann Nepomuk Maelzel (1772-1838).]

Epílogo (da autora):

"Já é dia!", exclamou Quelpo, dando um grande bocejo e saindo da toca. A raça de homens de corpo retorcido e cabeça minúscula, da qual Quelpo era o líder, estava em festa. Um bule de chá passou, apressado, "Estou com rafa, estou com rafa, sai do meu caminho!". E Quelpo levitou, abrindo caminho. Não podia negar que, assim como o bule, estava com um rafael dos infernos! Foi até a taberna local, um lugar muito bonito, todo coberto de trepadeiras, que eram tantas, tantas, que o uso de rodrigos não era suficiente – muitos clientes tinham se perdido lá dentro, se falava inclusive de uma civilização perdida aonde os garçons não se aventuravam ir para cobrar a conta. Quelpo sentou-se. Bocejou novamente. E pediu, cantando: "Eu quero uma gabriela bem quente, por favor!". Imediatamente, o garçom chegou com uma bandeja de prata com uma cúpula em cima. Destapou-a. Para a surpresa de Quelpo, no lugar da gabriela, havia um jorge. Quelpo arregalou os olhos, surpreso. Olhou para o relógio de pulso que trazia no tornozelo. Oh, não, estava atrasado! Quelpo era o novo integrante do grupo musical Ronei Metrônomo e os Ladrões de Bicicleta. Tocaria sinos célticos no show daquela noite, motivo pelo qual a cidade estava em festa e Quelpo, mesmo com rafael, saía às pressas daquele lugar estranho...

G.

















Representação abstrata de trepadeiras taberneiras.

P.S. todas as gravuras são da autoria de uma criança de corpo retorcido de dois anos cujas mãos foram decepadas quando ainda era um bebê, devido à necessidade de mão de obra extra na célebre colheita da madeira para confecção de rodrigos, em 1239 A.Q. (Antes de Quelpo). As gravuras são um raro registro de pintura com o nariz, uma prática bastante comum na referida civilização, assim como a corrida de saco e a caça anual ao pote de caramelo fugidio.














O bule.















Raro momento de Quelpo bocejando.

Saturday, May 13, 2006

LOOK AROUND!
((( Nothing is real, everything anticipates fiction )))

Para Lucas Falcão

Pensar a sua vida como uma grande narrativa, cujo narrador provavelmente é sádico o bastante para te meter numa experiência como esta, tem me ajudado a chegar a algumas conclusões interessantes sobre o porquê das coisas serem como são. Há alguns anos, recebi um e-mail de uma internauta peruana que, ao ler uma crítica minha no Claque, me interceptou com a seguinte pergunta: "você poderia me passar o telefone de Gabriel Garcia Márquez? É que preciso falar com ele com urgência". Na época, eu realmente não consegui entender como alguém poderia escrever um e-mail tão insano e despropositado como aquele – até mesmo porque eu não era a única do site a receber esse tipo de mensagem; Lucas, por exemplo, se conectou com gente do mundo inteiro por causa de seu famosíssimo artigo sobre O Clone (a novela), e as pessoas não se acanhavam em perguntar detalhes íntimos sobre a vida dos personagens (personagens, e não atores, notem a diferença, han!) e em que pé estava seu romance após o final do programa.

(!).

De novo:

(!).

Continuando. Anos mais tarde, constatei que aquele e-mail não tinha sido um mero desvario do destino, mas serviu para justificar o estado atual das coisas, antecipando o comecinho de um importante evento futuro da minha narrativa-vida: eu-personagem vivendo nesse fim do mundo, ao alcance de quem antes não passava de um nome na minha lista de grandes-autores-que-eu-preciso-ler-com-mais-atenção, Gabriel Garcia Márquez em pessoa. O que me leva a concluir que a peruana maluca daqueles anos (anos tão bons, anos "claqueanos" inolvidables) foi um personagem secundário importantíssimo no curso da minha vida, ainda que, na época, tenha sido injustamente classificada como "a maluca do e-mail de Gabriel Garcia Márquez" (o que, aliás, foi de grande utilidade para o baú de piadas internas do meu grupo de amigos irônicos e mordazes). Seguindo o mesmo raciocínio, era para Lucas ser hoje amigo íntimo dos personagens de O Clone, comendo em suas casas nos fins de semana e sendo convidado para as festas de aniversários de seus filhos mal educados; o que me faz considerar que nem tudo, numa narrativa, é mecanismo de antecipação, livrando assim o meu amigo desse prognóstico macabro e me convertendo numa teórica mais refinada, sem generalizações assertivas sobre o meu objeto de estudo (rá!).

Mas se a vida for realmente repleta de mecanismos de antecipação, a narrativa que me aguarda mais para frente descamba, inevitavelmente, para o trash. Jesuuuuus!! (parafraseando Belis). Seguindo esse mesmo raciocínio, não é impossível que, dentro de cinco anos, eu e Rafa estejamos vivendo numa casa de madeira branca no interior do Maine, com um cachorro chamado Cujo, um gato chamado Church e um bebê que atende pelo óbvio nome de Gage – alcunha carinhosa: Pequeno Zumbizinho da mamãe. E, já ia me esquecendo, um vizinho calado chamado Stephen. Enfim. Depois de Cuba, morar em lugares decentes de países de primeiro mundo seria, digamos, uma solução deus ex machina indigna dos requintes sádicos do narrador da minha vida. Portanto, é pouco provável que eu vá para o Canadá juntar-me aos queridos Lud e Lula. Ou que Xinaidah e eu façamos doutorado juntas, em algum país por onde a turnê de David Bowie passe, obrigatoriamente. Não, não. Isso seria um desvio abrupto na lógica dos eventos narrados até então. Eu espero coisas como: (1) viver num descampado nos Andes; (2) ter um vizinho mexicano com problemas de audição seríssimos e péssimo gosto musical; (3) os trigêmeos Almeida Cavalcanti, comendo papéis (leia-se: documentos importantes) e babando livros (leia-se: documentos ainda mais importantes); (4) Panchito, o mexicano citado no tópico dois, que além de surdo, será músico, e tocará "Llorando se Fue" (que não é uma música do folclore andino) pelo menos duas vezes por dia (e eu sempre estarei em casa justamente nessas horas mágicas).

Dos mecanismos narrativos que mais me atraem, as reviravoltas são os mais legais.

Se as reviravoltas estão lá adiante na narrativa para fazer o leitor reavaliar os signos fracos que foram narrados e encobertos, propositalmente, por mecanismos de antecipação mais escancarados, meu futuro tem salvação. É só meu narrador não se esquecer de coisinhas como: desde os meus 14 anos, na fase pós-Cristiane F., David Bowie tem sido o meu guia espiritual; que meus sonhos secretos oscilam numa escala que vai de no-central-park-com-rodrigo-barreto-e-seu-duzentos-pequineses a hoje-a-tarde-não-sei-se-vou-ao-concerto-do-weezer-ou-treino-salto-ornamental-na-neve; que o nome de meu gato será Fritz; e que eu realmente não me incomodo que as pessoas que nunca me viram na vida NÃO me chamem pelo apelido.

Portanto, eu acredito nas reviravoltas. E na criatividade de meu narrador.

Cuba está derretendo. Literalmente. Os cartazes de filmes afixados em minha parede começaram a escorrer – ou melhor, a fita crepe que os afixava à minha parede. O calor é bem parecido com o de Salvador, só que à noite faz um friozinho alentador (o que comprova que aquela cidade É o caldeirão do Demônio). Por aqui, uma semana de férias depois da loucura dos três minutos. Comprei uma TV e um vídeo e, nas próximas semanas, mergulharei de cabeça no maravilhoso mundo do cinema (hehehehe, ai, como a literatura nos proporciona infindáveis maneiras de ser sarcásticos).

E em um mês, minha narrativa envereda pela história paralela de "Os três meses de férias de Gabriela Almeida". Eu já não tenho mais unhas para roer.

P.S. Amem Patsy Cline vocês também.

I fall to pieces
((violinos))
Each time I see you again
((violinos))
I fall to pieces
((violinos e tchu ru ru))
How can I be just your friend?

(para meu Rafa).

G.

Sunday, April 23, 2006

Gabi watch the stars
((( quando voltar já não é um desejo, mas uma necessidade )))

Todo mundo vai à pizzaria para comemorar coisas. É barato e gostoso, dá para reunir amigos em mesas quilométricas e, quase sempre, o que era para ser uma simples saída acaba se transformando em um evento memorável (falo por meus amigos, que são absurdamente especiais e que fazem de qualquer programinha desinteressante um evento alucinante). Enfim, todo mundo vai a pizzarias comemorar coisas e, quando as pizzas são maravilhosas, a simples reiteração do seu sabor exclusivo vira motivo de festa. E pretexto para novas visitas (alguém pode me dizer se a pizza de queijo provolone e nozes da Pizzaria Siciliana, na Avenida Sete, continua sendo a oitava maravilha - em pizza - da cidade?).

(desculpem, acabo de babar no teclado).

Sexta-feira passada (21 de abril), fui comer pizza com uma amiga colombiana, em San Antonio de los Baños, o pueblo cubano onde estamos enfiados. San Antonio fica a dez minutos da escola, e o motivo de eu quase nunca visitá-la é que ela é enfadonha e desinteressante, bem diferente da romântica idéia concebida de pueblo latino e esquecido no tempo... Se a realidade nessas cidades fosse de fato interessante, não existiria um gênero literário conhecido por "realismo mágico", que trata de escamotear o marasmo dos não-acontecimentos com seres humanos de pele colorida, vacas que voam e ciganos imortais. Em San Antonio de Los Baños, Melquíades (Cem Anos de Solidão) venderia pão com presunto num tabuleiro sujo, e ainda tentaria roubar você na hora do troco. O que quase sempre acontece.

Então, fomos eu e Nazly (a colombiana) a San Antonio de Los Baños, em busca de uma dessas pizzas comemorativas. O motivo era o fim do exercício de três minutos em película, pelo menos para mim - fui a primeira do grupo a filmar e a editar e, contra todas as expectativas, o resultado não me fez querer nunca mais colocar os pés em um set. Apesar da inexperiência e de detalhes peculiaríssimos do processo de filmagem, os quais eu terei o imenso prazer de contar, pessoalmente, na mesa de alguma pizzaria decente, tudo saiu a contento. Agora tenho um bebê chamado "Coraje", que pesa três minutos e quarenta e um segundos e que está louco para conhecer os tios.

A chegada de "Coraje" era pretexto mais do que suficiente para uma pizza. Em San Antonio de los Baños. Uma pizza que custa 10 pesos cubanos, o equivalente a mais ou menos um real. Uma pizza de cebola - sem queijo -, saindo quentinha num pedaço de papelão, direto da cortina de moscas que separa você da bancada aonde são servidos os quitutes. Nham. Para acompanhar, um exclusivo shake (rá!) - ou batido - de goiaba, servido em exclusivos copos confeccionados com fundos de garrafas de cerveja Bucanero. Rafa foi e gostou tanto que levou para o Brasil uma blusa manchada de óleo (outro ingrediente sempre presente na culinária cubana) de recordação.

(Eu realmente fico intrigada como esse país ainda não foi assolado por algum problema gravíssimo de saúde pública. Papel higiênico, guardanapos, louça, talheres e copos limpos, esgotos tampados, hospitais esterilizados (!), são todos artigos de luxo em Cuba. E, não vou mentir, fico ainda mais abismada com o fato de meus dias de estômago de cristal terem ficado definitivamente para trás: hoje eu como essas porcarias todas, dia após dia, e passo ilesa pela fauna virótico-bacteriana. Impressionante...)

A pizza de cebola - sem queijo - acabou me levando para o fundo da minha cabeça (wow!). Por lá, os pensamentos, velhos companheiros na falta de queijo, namorado, amigos e familiares queridos. Tem quase um ano que meus prazeres sofreram uma drástica redução no padrão de qualidade. Coisas que antes me tirariam do sério, hoje fazem parte de uma rotina surreal e, por força do hábito, inquestionável. Já cansei de ouvir, quando vou a supermercados ou repito algum prato em restaurantes e lanchonetes, o inacreditável bordão "Cuidado, se comer demais, vai ficar feia". Que???? Não me imagino comprando no Mc Donald’s e recebendo, ao invés de um "Obrigado, volte sempre!", um "Cuidado, se comer demais, vai ficar feia". Isso só não me tira do sério de verdade por causa da minha confessa atração pelo absurdo. E porque eu não estou tão acima do peso a ponto de me ofender seriamente.

"Cuidado, se comer demais, vai ficar feia" (a primeira vez foi quando eu comprei todo o estoque de biscoitos de chocolate Nestlé que chegou, milagrosamente, no mercado da escola...).

A pizza de cebola - sem queijo - também me ajudou na avaliação dos últimos acontecimentos. Conviver tão intensamente com o mesmo grupo de pessoas e, o que é mais difícil, descobrir suas camadas secretas de comportamento (nem sempre aprazíveis) durante um processo desgastante de trabalho (dois meses na pré-produção e produção de sete curtas), não é lá um troço muito saboroso. Com o passar dos dias, não apenas os equipamentos pesam (e muito), mas as relações vão se arrastando, cansadas, atrás de objetivos que, no final das contas, nenhum de nós tem realmente muito claro. Foi como comer pizza de cebola - sem queijo: ácido, porém crocante.

Sinto falta de vocês. Muitas. Ontem eu olhei o céu cheio de estrelas e me deu vontade de chorar (não sei ainda se pelo céu ou porque um álbum do "Air" estava soprando, a todo volume, no meu ouvido...).

G.

Saturday, April 08, 2006

Los Tres Minutos
marzo y abril de 2006