Ninguém diz eu te amo
Em "The Hole", Tsai Ming-Lang explora
as sutilezas mais inusitadas das paixões platônicas,
criando chaves frescas e originais para falar, sobretudo, de amor.
Para minha sempre, sempre querida Lud.
Graças a Ludmila Carvalho, uma jovem senhorita bastante especial na minha vida, que atualmente se ocupa do maravilhoso mundo do cinema oriental em seus estudos doutorais, no Canadá, graças a ela tive a feliz sorte de conhecer Tsai Ming-Lang, que já entrou na minha lista de cineastas preferidos, desde já, com seu espetacular filme "The Hole" (Taiwan-França, 1996). É para ela, minha Lud, que eu peço licença para falar de sua descoberta, uma pequena jóia nessa vasta e desconhecida cinematografia oriental que me fascina, sobretudo, pela sutileza narrativa capaz de converter histórias mínimas em grandes épicos intimistas e sentimentais.
A trama de "The Hole" gira em torno de um homem, uma mulher e a dificuldade de comunicação que os remete ao inevitável terreno das paixões platônicas. Taiwan é cenário de uma epidemia viral que obriga muitos cidadãos a evacuarem imediatamente as suas casas; num prédio totalmente abandonado, ele e ela – de quem tampouco sabemos os nomes – são os únicos a não deixar o local, optando por enfrentar o período de chuvas torrenciais e a ameaça de contaminação dentro de suas casas minúsculas, como se isso fosse suficiente para protegê-los do perigo.
Abandonados à (falta de) sorte de um período de quarentena que automaticamente varre de suas vidas responsabilidades, relações e rotinas, ambos se entregam a uma existência repetitiva e destituída de quaisquer metas. Eles apenas sobrevivem, alimentando-se de noodles pré-prontos em repetitivos rituais contíguos (ironicamente, têm a mesma chaleira e comem a mesma marca de comida, em suas minúsculas cozinhas, que também são idênticas). Os dois seguem ignorantes da existência um do outro até que uma fatalidade – melhor dizendo, outra fatalidade – finalmente os põe em contato direto. Ou quase isso. Um pequeno buraco no piso dele – e, conseqüentemente, no teto dela – rompe o tédio do passar de dias insones e vazios, aguçando sua curiosidade e praticamente obrigando-os a estabelecer algum tipo de contato.
Amor e noodles instantâneos
Em "The Hole", o amor é, ao mesmo tempo e paradoxalmente, visto (1) tanto sob a ótica das narrativas românticas (2) quanto através de uma abordagem crua e naturalista do mundo. Pode soar bizarro, mas a combinação encontra perfeito equilíbrio na poética de Ming-Lang. Náufragos de vidas solitárias, os protagonistas são despojados de quaisquer sinais que remetam às suas vidas pregressas: suas casas não têm fotografias, objetos de decoração ou qualquer coisa capaz de torná-las "lares", e não cubos idênticos decorados com poucos móveis. São personagens sem passado, sem história, sem voz (estão sós e calados, na maior parte do tempo). Eles tampouco exalam aquela espécie de encanto comum aos personagens de dramas românticos; Ming-Lang reforça sua falta de glamour envolvendo-os na cotidianidade desinteressante de uma semivida vegetativa e desenganada. Assim, os quadros estão cheios de tempos mortos e o seu ritmo interno é lento, o que pontua essa banalidade de que esses personagens são vítimas.
A primeira cena do filme traz Ele dormindo no sofá de uma sala pequena. Da janela da cozinha, que pode ser vista da sala, a chuva estrepitosa hachura a janelinha de vidro – um elemento constante na história, responsável por preencher os silêncios decorrentes da ausência de diálogos, música ou trilha sonora incidental. A câmera documenta o momento cotidiano na vida desse personagem, que segue dormindo até ser despertado por alguém que bate à porta; ele se levanta, atende ao visitante (é o bombeiro, que abre o buraco em seu piso, alegando problemas no encanamento), deambula no espaço, senta-se. Mal vemos seu rosto, já que o enquadre nos fornece uma visão genérica do personagem e de sua relação com o espaço.
Ela nos é apresentada chegando em casa, munida de sacos plásticos contendo pacotes e mais pacotes de papel higiênico e tentando secar os cabelos respingados de chuva. A câmera também é fixa e aberta. Ela entra, põe os sacos num canto, e tenta em vão manter alguma espécie de ordem no lugar: ajeita o papel de parede que começa a despregar-se por causa da umidade, tenta secar o chão encharcado, vai até a cozinha preparar a sua refeição instantânea. A câmera é paciente e não se adianta às ações dos personagens, nem as suprime ou sugere por elipses. O cotidiano é visto como se fôssemos, de fato, um voyeur à espreita na janela da frente – sem cortes ou artifícios, as ações vão se desenrolando com a imprevisível previsibilidade do cotidiano de dois estranhos.
Para Ele e Ela não resta outra saída senão a aproximação, ainda que a força que os atraia não seja propriamente romântica, pelo menos não ao princípio. Ambos sobrevivem sob o prognóstico bizarro de que muito provavelmente serão os próximos a morrer infectados pelo vírus. A urgência da concretização do amor, aqui, é paralela ao suspense que ronda cada passo da vida desses personagens, cada notícia sobre os sintomas da doença que eles ouvem dos noticiários da TV, cada goteira que se abre em seus tetos, ameaçando-os mais e mais com um futuro do qual não podem escapar ("é impossível para um ser humano sobreviver sob essas condições", alerta a voz off de um repórter que acompanha a apresentação dos créditos iniciais).
Voyeurismo
A dificuldade de comunicação é um pressuposto da existência desses dois personagens, e não um elemento pontual de suas condutas que se aplique unicamente às questões referentes à concretização de relacionamentos amorosos. Não se trata da usual timidez que antecede a união de casais apaixonados. Vai mais além, muito mais. Os personagens de Tsai Ming-Lang são seres perdidos em seu vasto mundo interior, ao qual temos acesso nos raros momentos em que o diretor consegue traduzir, em imagens, o seu fluxo de consciência. Talvez Ming-Lang seja dos poucos cineastas capazes de conduzir o espectador até o insondável universo dos pensamentos de seus personagens, e o faz através desse esmiuçar de suas manias cotidianas. Sem voz off, sem músicas ou canções que parafraseiem os seus estados de ânimo. De tanto vê-los "viver", despojados de qualquer artifício que os torne idealizados, o espectador vai conhecendo e reconhecendo em seus gestos e pequenas manias o que pensam e sentem.
Por isso nos enternecemos quando Ele urina na pia do banheiro, ao invés de usar o vaso sanitário, só para agradá-la (antes disso, Ela liga para Ele reclamando de que, quando Ele usa o vaso sanitário, o dela não funciona). Ou quando ele chora compulsivamente, um choro explosivo e sincero, desesperado, sentado no chão da sala, porque já não consegue mais vê-la através do buraco. Pode-se dizer que nesse choro há amor, desespero, arrependimento (por não haver feito nada antes), angústia, dor, enfim, um vasto mundo de sentimentos ao qual temos acesso com o passar da história.
É nessa "cotidianização" da narrativa que o cinema de Ming-Lang se revela poderoso. Raras vezes o tema do voyeurismo foi levado tão a sério como aqui, e é dessa observação paciente e silenciosa que emerge, pouco a pouco, o interesse pelos personagens e seus dramas individuais. Ele e Ela se espreitam pelo buraco e por outros "canais de comunicação" que unem suas casas vizinhas: Ele vomita, Ela suja as mãos com o vômito que cai sobre o seu televisor (o amor platônico nunca foi tão naturalista como nessa cena); Ele abre a torneira da cozinha, e a torneira dela não funciona; Ele põe o despertador para tocar, e é Ela quem desperta com o barulho; Ele liga a luz, e a casa dela se ilumina; Ela não pode usar o vaso sanitário se Ele o faz, na mesma hora. É desse intercâmbio silencioso de comportamentos comuns que surge o amor. Tão sutil, mas ao mesmo tempo tão urgente. Tão urgente, mas ao mesmo tempo tão difícil de comunicar.
Os musicais
Uma outra via de acesso ao mundo interior dos personagens, em "The Hole", são os inusitados musicais imaginados por Ela. A aridez que circunda a personagem, em sua casa quase sem móveis, num bairro fantasma em quarentena, a faz buscar refúgio em sua imaginação que, ao contrário da realidade, é cheia de cores e brilhos, evocando o kitsch e o absurdo visual de que carecem os cenários reais. Nesses musicais, Ela é a estrela absoluta, maquiada e vestida com roupas cintilantes e chamativas (exatamente o oposto de sua versão "real"). É através desses números que ela comunica, textualmente, a sua necessidade de ser vista como a mulher sedutora e irresistível que provavelmente gostaria de ser (o número de calypso dentro do elevador, no qual ela usa uma extravagante peruca cor-de-rosa e um justíssimo vestido colorido, para não falar das luzes pisca-pisca que decoram o ambiente, é imperdível), além de expressar os seus sentimentos pelo vizinho de cima.
Nos musicais, são apresentados números de rock and roll, calypso, r&b (com direito ao trio de backing vocals femininas que costumavam acompanhar, com seus vocalizes, a apresentação de uma cantora principal), culminando em um musical no melhor estilo Marylin Monroe em "Adorável Pecadora" (George Cukor), onde Ela é vista descendo e subindo escadas na companhia de homens de terno que, obviamente, estão aos seus pés. A apropriação desses elementos da cultura ocidental por Ming-Lang tem um caráter notadamente de farsa, de burla; o exagero das vestimentas da personagem, brilhantes e coloridas em matizes impensáveis até para a sua extravagância original, nos convoca a um riso de alívio à tensão instaurada na vida real de ambos os personagens. Contudo, o "glamour" forjado desses musicais, que ocorrem em diferentes espaços do mesmo edifício onde vivem os personagens, restabelecem o vínculo entre "realidade" e "sonho", lembrando-nos a todo o momento da sua condição de prisioneiros (da situação, do lugar, de sua própria dificuldade de comunicar, do futuro).